Relacionamentos Abusivos - E o Ciclo da Violência

O texto a seguir contém relatos sensíveis e pode conter gatilhos. Não é indicado para pessoas sensíveis.

Por Livia Salatta.

O relacionamento abusivo possui várias problemáticas, a começar pelo fato da pessoa que está nesse tipo de relação, dificilmente conseguir enxergar os abusos, já que a violência progride paulatinamente. Um relacionamento abusivo não nasce abusivo.  

  

Na vasta maioria dos casos, o homem figura como sendo o abusador, já que tenta exercer a sua “superioridade” sobre a mulher, através da manipulação, controle, violência física e muitas vezes, justifica a sua conduta abusiva como tentativas de demonstração de afeto e cuidado e conseguem ainda, manipular a situação para que a vítima se sinta a responsável pela atitude “em excesso” do seu parceiro.  

  

Em quase todos os casos, por muito tempo a vítima acredita que o abusador ainda pode mudar, prendendo-se as memórias do início do relacionamento e se agrava ainda mais, caso a vítima e o abusador possuam filhos em comum, não apenas pelo vínculo, mas também por todos os abusos presenciados pelas crianças.  

  

Importante destacar que a violência pode ocorrer de diferentes formas, tais como, física, moral, psicológica, sexual e patrimonial. E ao longo das próximas postagens no blog, vamos caracterizar detalhadamente cada uma delas.  

  

A violência ocorre em fases. Sendo a primeira chamada de “fase de tensão”, sucedendo de maneira “discreta” através de olhares, atitudes, elevação do timbre da voz, etc. Na segunda fase do ciclo, a tensão aumenta e o homem passa a ter comportamentos mais violentos, já não tendo pudor em gritar, insultar, ameaçar, quebrar objetos... Também é nessa fase que ocorrem as agressões físicas, psicológicas e até sexuais.   

  

A terceira fase conhecida como "lua de mel" é o momento em que as desculpas e reconciliação acontecem. O homem tenta minimizar o seu comportamento atribuindo a sua reação às atitudes da vítima e promete mudança no comportamento, dizendo que as agressões não mais ocorrerão. Por inúmeras razões, a mulher decide continuar na relação abusiva e (geralmente) por poucos dias, o abusador mostra-se “mudado”, porém não consegue sustentar tal comportamento por muito tempo e o ciclo de abusos se reinicia.  

  

Em todas as minhas postagens no blog, eu buscarei trazer exemplos práticos a partir das minhas vivências e hoje eu vou contar como foi a minha experiência em um relacionamento abusivo. Em 2013 eu comecei a namorar o Romeu (pseudônimo), que desde o início da relação demonstrava ter problemas com o uso de álcool, como se a sua personalidade se alterasse, passando a me culpa por suas frequentes crises de ciúmes públicas (e totalmente desnecessárias). Não muito raro, Romeu parecia se divertir ao me fazer sentir medo todas as vezes em que dirigia o seu carro de maneira imprudente, “cantando pneu” em alta velocidade, propositalmente. E, literalmente, todas as vezes em que ele me pedia desculpas, eu acreditava e após poucos dias, o ciclo se agravava.  

  

Passei a temer os comportamentos abusivos de Romeu e me sentia extremamente tensa todas as vezes em que ele ingeria bebida alcoólica. Levei algum tempo para “chegar ao meu limite” e através de terapia anos mais tarde, parei de me culpar por não ter percebido “os sinais” antes.    

  

Quero contar sobre um episódio específico que aconteceu no dia 30 de dezembro de 2014. Após muita insistência de Romeu, aceitei ir numa boate comemorar o (quase) final do ano, e claro que Romeu não havia mudado como prometera, pelo contrário, estava comprando combos de bebidas alcoólicas e sem sequer se incomodar com a minha presença, convidava inúmeras meninas que ele fingia conhecer para os shots de tequila que ele "gentilmente” oferecia. Muito embora eu só tivesse 21 anos, eu já tinha criado aversão a qualquer cena de ciúmes e discussões públicas e também temendo chatear Romeu, resolvi me calar.  

 

Após um longo período em pé, o comuniquei que procuraria um local para sentar e, poucos minutos depois Romeu me encontrou sentada próximo a um dos banheiros e incompreensivelmente passou a gritar e gesticular, estando visivelmente embriagado. Com extrema vergonha, pedi que fôssemos embora, momento em que Romeu me respondeu que se eu quisesse eu deveria “dar o meu jeito” e ir embora sozinha.   

  

Pois bem, decidi que iria embora e aguardando na fila para pagar e me retirar do ambiente, um homem desconhecido por mim começou a tentar iniciar um diálogo e com medo – pois sabia que eu estava sendo observada – me desculpei e respondi que não podia conversar. Isso foi o bastante para que Romeu aparecesse, me agarrasse pelo braço, me puxasse pra um canto escuro da boate e passasse a proferir diversas ofensas, chacoalhando os meus braços e me apertando violentamente contra a parede. Algumas pessoas que estavam a nossa volta tentaram se aproximar, mas foram impedidas por um dos amigos de Romeu que assistia a tudo e nada fazia sob o argumento de se tratar apenas de uma briga de casal. Neste momento, totalmente desconsolada e envergonhada eu me questionava mentalmente “o que mais Romeu precisava fazer para eu perceber que não merecia estar naquela relação?!”  

  

Um segurança também tentou intervir e novamente, o amigo do Romeu “justificou” que éramos um casal, e surpreendentemente, tal informação parecia ser o suficiente para convencer facilmente as pessoas a não interferirem. E o segurança de maneira indiferente ao meu olhar suplicante por ajuda se dirigiu a Romeu e o alertou que caso ele quisesse continuar brigando comigo era para que fôssemos do lado de fora.    

  

Infelizmente eu só consegui me livrar desse relacionamento alguns meses após esse episódio e não teria conseguido sem amigas que tentavam me alertar sobre a realidade que eu estava vivendo, mas que não conseguia enxergar. É extremamente necessário que uma mulher vítima de relacionamento abusivo tenha uma rede de apoio externo para que consiga encontrar forças para se desvencilhar da relação abusiva.  

  

Hoje, ao redigir este relato e me recordar de memórias que por muito tempo lutei para esquecer, consigo respirar aliviada por estar tendo a oportunidade de contar (parte da) minha história e não ter virado estatística, como milhares de mulheres que morrem todos os dias por aqueles que justificam que “amam demais”. Entretanto, esse tipo de relação é contrário ao amor, o abusador é vazio de amor e não consegue enxergar nada além de si mesmo e o seu egoísmo. Parece óbvio dizer, mas violência é o contrário de qualquer demonstração de afeto. O amor não mata! 

 

Não seja silente caso você ou alguém que você conheça esteja passando por uma relação abusiva, ligue 180 e se possível, procure ajuda psicológica. E lembre-se: você não está sozinha!  

  

Nas próximas postagens, iremos abordar detalhadamente os tipos de violência, aplicação das Leis cabíveis ao tema e formas de apoio as vítimas de abusos.  

  

📍Se você sofre ou conhece alguém que sofre violência sexual e/ou violência contra a mulher, não se cale! Busque ajuda e denuncie através do disque 100 ou ligue 180. Em caso de emergência, disque 190. 

Os telefones funcionam 24 horas por dia, todos os dias da semana. 


- Os canais de atendimento da Defensoria Pública também podem te ajudar de forma gratuita. As denúncias devem ser realizadas em Delegacias da Mulher que são especializadas para receber vítimas de violência de gênero e que eventualmente precisem de medidas protetivas.  


No momento do registro do boletim de ocorrência a própria delegada pode redigir a medida protetiva e também te encaminhar para um local seguro, caso exista na sua cidade. 


- Sites úteis (Estado de SP):  

ATENDIMENTO ÀS SITUAÇÕES DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA AS MULHERES NO ESTADO DE SÃO PAULO

  • Defensoria Pública 

https://www.defensoria.sp.def.br/dpesp/Default.aspx?idPagina=3453

 

  • Delegacias da Mulher  

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